Ensaio sobre a cegueira

Finalmente eu li Ensaio sobre a Cegueira do José Saramago. Sim, é uma vergonha uma pessoa formada em Letras não ter lido esse livro até hoje, mas a vida segue. Eu comprei ele o ano passado e estava lá na pilha dos livros para ler, resolvi aproveitar esse momento de reclusão para colocar as leituras em dia e ele foi um dos escolhidos.

O livro começa com as pessoas ficando cegas sem motivo algum, uma cegueira branca, que não deixa nenhum tipo de vestígio físico. A medida que as pessoas vão se infectando, o governo decide coloca-los em quarentena em um antigo manicômio. Lá acompanhamos um grupo dos infectados e suas dificuldades, mas o mais curioso é que a mulher de um deles, o médico oftalmologista, não foi atingida pela cegueira que mentiu para poder acompanhar seu marido na internação.

Não posso negar a semelhança com que estamos vivendo nesse tempo de quarentena. A propagação de infectados e toda essa semelhança biológica. Mas o que mais me impressionou foi a semelhança de como a sociedade reage a momentos extremos como esse. Um momento o médico diz “É desta massa que somos feitos, metade indiferença e metade ruindade”, citação que descreve bem como somos feitos como seres humanos e sociedade. Num momento com essa que passamos, estamos mais preocupados com o que ocorre apenas conosco e tratamos os problemas dos outros com indiferença, isso quando não colocamos nossa ruindade a mostra.

“É desta massa que somos feitos, metade indiferença e metade ruindade”

José Saramago

Falo a indiferença como a parte central de tudo. Não nos importa mais nada além de nós mesmos. Se estamos bem e confortáveis, o problema do outro não nos afeta, não nos comove. Olhamos para nosso próprio umbigo, para nosso desejos e ponto. Não existe mais nada no mundo. E isso não é de agora, desse momento em que vivemos, acontece há muito tempo, quando ignoramos as crianças nos faróis, o desabrigados nas ruas. E também quando ignoramos os sentimos das pessoas que nos rodeiam, nossos amigos, familiares ou mesmo colegas de trabalho. E isso Saramago também nos traz em Ensaio sobre a Cegueira, quando mesmo aqueles que se mostram mais civilizados acabam por cometer atos egoístas, sem pensar no bem o outro, quanto mais de uma comunidade.

Não pensem que sou um exemplo de boa samaritana, estou bem longe disso! Mas quero ter a esperança que esse período seja de renovação de valores de uma sociedade, que tenhamos um desfecho mais humanizado do que Saramago imaginou. Que esse momento de isolamento nos sirva para olhar o outro, parar de exigirmos e nos doarmos mais. Sim, esse romantismo pode ser ingenuidade, mas não consigo seguir sem acreditar nisso.


⭐⭐⭐⭐⭐

Ensaio sobre a cegueira

José Saramago

Editora: Companhia das Letras

312 páginas

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